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segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Porque os EUA não enxergam...

...que diminuindo a emissão de CO2 a economia recebe estímulos?

Pois pode-se entender o "como" e o "porque" analisando o ótimo texto abaixo, publicado na "ValorOnLine". Nele se descobre que até O Petróleo Caro Pode Ter Seu Lado Bom.

O petróleo caro pode ter seu lado bom?
John Carey, BusinessWeek
25/08/2008

A Amite Foundry & Machine é uma daquelas companhias que estão no coração do poder industrial americano. As fornalhas dessa empresa da Louisiana derretem grandes pedaços de aço reciclável, remodelando-os em peças para caminhões, plataformas de petróleo e outros equipamentos. A Amite chegou mesmo a transformar 30 toneladas de metal do World Trade Center na proa do navio USS New York. Mas a companhia sofreu com a transferência de produção de bens em grande escala para fora do país, e a cidade de Amite, 67 km de Nova Orleans, com suas igrejas de madeira branca desbotadas e uma rua principal que o tempo esqueceu, vinha sofrendo junto.


Mas isso mudou. As encomendas da Amite Foundry cresceram 25% em 2007 e 30% neste ano, levando a companhia a contratar dezenas de trabalhadores. Qual o motivo da recuperação? O preço do petróleo. Com o custo de um barril acima dos US$ 110, qualquer coisa que possa fornecer suprimentos adicionais, alternativas ou ganhos em eficiência energética vem prosperando. Um exemplo: as rochas porosas saturadas de petróleo do Canadá. Elas estão aumentando as vendas dos caminhões de mineração com capacidade de 380 toneladas da Caterpillar - e a Caterpillar usa quase 50 toneladas de peças fundidas de aço da Amite por veículo. É claro que o aumento dos preços da energia e das commodities tornam mais caro produzir e distribuir aço, diz Roy Roux, diretor de vendas da controladora Ameri-Cast Technologies, mas "os altos preços do petróleo na maior parte das vezes são bons para nós".


Obviamente, a disparada dos custos da energia está provocando muitos problemas para os americanos, especialmente no momento em que eles sofrem com a queda dos preços das moradias e a alta dos preços dos alimentos. E ao que parece esse problema não vai diminuir. "Ainda não estamos vendo o aumento dos custos do aquecimento residencial", alerta R. Neal Elliott do American Council for em Energy-Efficient Economy. Isso começará acontecer neste final de ano, outono e inverno no Hemisfério Norte, com aumentos dramáticos nos preços do óleo para aquecimento, do gás natural e até mesmo da eletricidade.


Mas o ressurgimento da Amite Foundry é apenas um dos exemplos de uma verdade mais profunda: de muitas maneiras, a energia cara é algo bom. Por quê? Quando o preço do petróleo sobe, as pessoas usam menos, encontram substitutos e desenvolvem novos materiais. Esses efeitos são apenas economia básica. As coisas estão tão dolorosas no momento, segundo muitos economistas, por causa das duas últimas décadas de petróleo barato. Os preços permaneceram baixos em parte porque não refletiam o custo total de extras como a poluição, de modo que não havia muito incentivo para se usar a energia de uma maneira mais sensata. Se esses extras tivessem sido computados, os EUA estariam melhor preparados para a atual disparada dos preços e para o dia em que a produção mundial de petróleo começar a cair.


É por isso que há um interesse crescente, tanto da direita como da esquerda, numa política que use os impostos para colocar um piso nos preços do petróleo. Acima de um certo nível - digamos US$ 90 -, não haveria impostos. Mas se o preço no mercado mundial caísse abaixo disso, os americanos passariam a pagar impostos.


A energia cara é um medicamento poderoso. Ele pode ser doloroso quando ingerido, mas no longo prazo traz a cura para um grande número de doenças. Ele induz as empresas e as pessoas a usarem menos os automóveis, venderem os utilitários-esportivos (SUVs) ou instalarem sistemas de aquecimento mais eficientes. Os custos maiores começam a afastar aos poucos os EUA de seus subúrbios tradicionalmente congestionados em direção a comunidades mais densas e menos dependentes do automóvel. Utah possui um programa patrocinado pelo governo que estimula o uso das bicicletas no caminho para o trabalho. "Quando o governador republicano do Estado mais republicano da União promove a bicicleta como meio de transporte preferido, você sabe que as pessoas estão prestando atenção aos sinais emitidos pelos preços", afirma Keith Bartholomew, professor de urbanismo da Universidade de Utah.


Essas mudanças estão salvando vidas - menos mortes no trânsito - e melhorando a saúde das pessoas, na medida em que elas deixam o carro de lado. Um estudo da Universidade Washington, de St. Louis, sugere que 8% do aumento das taxas de obesidade nos EUA desde a década de 1980 se devem aos baixos preços da gasolina, que levaram as pessoas a andar menos, pedalar menos e comer mais em restaurantes. Andy King, um engenheiro do Vale do Silício, passou a usar uma bicicleta para ir trabalhar, e diz que perdeu 15 Kg desde fevereiro. "É bom para o meu corpo e a minha alma", diz King.


Os preços altos da energia também estimulam a inovação, os investimentos em remunerações alternativas e incentivam a busca por mais petróleo. Pesquisadores financiados pelos militares americanos vêm produzindo combustíveis para jatos a partir de plantas. A Toyota e a General Motors (GM) estão testando carros híbridos que podem rodar 65 km somente com eletricidade e podem ser recarregados em uma tomada comum. Empresas estão construindo enormes painéis de espelhos no deserto para gerar vapor, e desse modo eletricidade, a partir da energia solar. Há novos sistemas para controlar o consumo de energia nas residências e fábricas, e programas para isolar áreas mais pobres nos centros das cidades, proporcionando a economia de energia - e empregos. Os EUA usam pouco mais de 20 milhões de barris de petróleo por dia para aquecer moradias, movimentar a indústria e abastecer automóveis, caminhões e aviões. Iniciativas de economia de energia "poderiam facilmente reduzir essa demanda em 4 milhões ou 5 milhões de barris/dia em dez anos", afirma Hillard Huntington, professor da Universidade Stanford e diretor-executivo do Energy Modeling Forum, um grupo de especialistas em energia.


Essas reduções, por sua vez, possuem virtudes poderosas. Elas reduzem a poluição e as emissões de dióxido de carbono, que provocam o aquecimento global. Elas reduzem a necessidade de uma presença militar para garantir o comércio mundial de petróleo. E elas diminuem a enxurrada de dólares para o Oriente Médio, Rússia e Venezuela, mantendo mais riqueza nos EUA, em vez de transferi-la para fornecedores que freqüentemente não são amigáveis. Esse efeito cresceria com um imposto que estabelecesse um piso nos preços, reduzindo a demanda. E a receita tributária - a diferença entre o piso e os preços mundiais - permaneceria nos EUA para incentivar os investimentos. "Acho que ninguém pode negar que estaríamos melhor se não estivéssemos enviando bilhões de dólares para Chávez, Putin e os sauditas, e estivéssemos desenvolvendo produtos e serviços que poderíamos vender para outros países", diz Andrew J. Hoffman, professor de empreendimentos sustentáveis da Universidade de Michigan.


Os EUA já estiveram nesse ponto antes. Embora o país tenha sido moldado por uma total falta de preocupação com os custos da energia, os choques do petróleo da década de 1970 mudaram isso. "Nós nunca pensamos no fato de que tudo depende da energia barata", diz Kenneth T. Jackson, professor da Universidade Columbia.


O mito da energia ilimitada sofreu um contratempo com a disparada dos preços do petróleo. Em 1980, o preço havia saltado para US$ 103 o barril (em dólares de hoje). O país respondeu comprando carros menores, aprovando padrões rígidos de economia de combustíveis, tornando a indústria mais eficiente e aumentando a exploração de petróleo. Os americanos aprenderam a usar meta de energia por dólar do PIB, como fizeram antes da crise - ganhos que foram bem satisfatórios. "Todos os grandes esforços que fizemos nos anos 80 para reduzir a dependência energética nos tornaram menos vulneráveis aos atuais choques energéticos", diz Gilbert Metcalf, economista da Universidade Tufts.


Mas esse impulso rumo a uma maior eficiência energética logo foi perdido. Em cinco anos, por causa da redução substancial da demanda, o mundo estava inundado de petróleo. Os sauditas cortaram a produção de 9,9 milhões de barris por dia em 1980 para 3,4 milhões em 1985 - e ainda assim não conseguiram impedir o preço de cair abaixo de US$ 11 em 1986 (o equivalente hoje a US$ 22).


Durante duas décadas os preços do petróleo permaneceram relativamente baixos - com resultados previsíveis. Os americanos compraram milhões de veículos utilitários-esportivos (SUVs). Os investimentos em alternativas, exploração de petróleo e eficiência secaram. O Laboratório Nacional de Energia Renovável acabou com seu programa de biocombustível produzido a partir de algas.



Energia cara é um remédio poderoso. Pode ser doloroso quando ingerido, mas no longo prazo cura muitas doenças"


Os preços estão muito altos novamente e a mão invisível está empurrando com força. Os americanos estão usando menos o carro - o consumo de gasolina caiu 5,2% no começo de julho, comparado ao mesmo período do ano passado. As vendas das picapes grandes da Ford, há muito tempo o veículo mais vendido nos EUA, caíram 22% este ano; as vendas do Honda Fit aumentaram 69%.


Os preços da gasolina chegaram a um ponto crucial para Dikran Khanian, proprietário d uma oficina mecânica de Ann Arbor, Michigan. Sua picape Chevy Silverado de cabine dupla "era muito potente", diz ele. Mas quando ele sofreu um acidente no ano passado e a seguradora deu perda total no veículo, junto com o choque ele se sentiu aliviado. O acidente abriu caminho para ele comprar um Honda Element, um carro econômico que ele vinha "namorando". "Eu era apaixonado pelo motor grande da Silverado, mas algumas coisas precisam ter um fim", diz. Khanian está dirigindo menos, levando seu lixo reciclável para o supermercado quando vai fazer compras, em vez de fazer duas viagens, e está pisando menos no acelerador. "Meus amigos dizem: 'Dick, você dirige como uma velha'", diz ele. "Eu digo: 'Vocês não sabem que podem economizar 20% apenas pisando menos forte no acelerador ?'" Agora seus gastos com gasolina são de US$ 200 por mês, um terço do que ele gastava com a Silverado.


Pegue as iniciativas de milhões de motoristas como Khanian. Adicione a transferência do transporte de alguns produtos de tecnologia de companhias aéreas para empresas de navegação, um novo sistema de remessas aéreas da UPS que reduz o tempo ocioso e uma variedade de outras iniciativas. Aí acrescente a demanda mais baixa ao redor do mundo e acrescente o aumento da oferta de areias impregnadas de betume do Canadá e a crescente produção de petróleo da Opep e de outros países.


Dá para ver para onde a coisa está caminhando. Wall Street já viu. Com a demanda por petróleo caindo e a oferta em alta, os preços já caíram mais de US$ 20 desde o recorde de US$ 147,27 registrado em 11 de julho. "Acho que ninguém acredita que preços tão altos como aquele haviam chegado para ficar", diz Denny Ellerman, economista do Massachusetts Institute of Technology (MIT).


Assim como os preços baixos do final da década de 1980 e dos anos 1990 desfizeram alguns efeitos positivos do petróleo caro, a simples possibilidade dos preços caírem está enfraquecendo as forças do mercado que pressionam para uma maior eficiência energética. O que realmente motiva o comportamento não é o preço de fato, e sim a percepção de onde os custos estarão no longo prazo. Isso ajuda a explicar por que os americanos não recuaram enquanto os preços da gasolina subiam, poucos anos atrás. "Depois do [furacão] Katrina, a gasolina chegou perto de US$ 3 o galão (R$ 1,30 o litro) e então os preços deram uma caída", diz Rajjev Dhawan, diretor do Centro de Previsões Econômicas da Universidade Estadual da Georgia. Somente quando a gasolina começou a romper a barreira dos US$ 4 (R$ 1,70 o litro), sem nenhum sinal de alívio à vista, o alarme soou.


Por mais forte que seja, esse alarme está sendo abafado pela incerteza em relação ao rumo dos preços. Alguns especialistas vêem US$ 200 por barril em suas bolas de cristal; outros prevêem US$ 75 ou menos. Como resultado, tecnologias que deveriam fazer sentido econômico com o barril a US$ 100 não estão sendo financiadas, segundo afirma o capitalista de risco Vinod Khosla. "Estamos ficando com o pior de dois mundos - preços altos e investimentos baixos", diz Khosla, co-fundador da Sun Microsystems e hoje apoiador de empreendimentos que buscam alternativas energéticas.


É por isso que Khosla e muitos economistas e especialistas em energia estão tentando vender a idéia do piso no preço do petróleo. A certeza de um preço relativamente alto estimularia o suficiente os investimentos em alternativas, eficiência e novas ofertas para impedir que os preços subissem muito acima desse nível no futuro, afirma Khosla. Isso não cria nenhum problema novo, uma vez que o imposto começaria a ser cobrado apenas depois que consumidores e empresas já tivessem um alívio considerável dos preços atuais. Teria sido melhor taxar os cidadãos décadas atrás, mas isso era quase impossível politicamente. Mas, como as forças externas agora conseguiram a mesma coisa, economistas afirmam que um piso seria uma boa ajuda.


Mas é claro que não é tão simples assim. Alguns grandes setores serão afetados por qualquer política que aumente os preços da energia: as companhias aéreas, as companhias de navegação, companhias do setor industrial, serviços públicos - na verdade, todas aquelas que não conseguirem reduzir o consumo facilmente. E se o petróleo fosse o único combustível fóssil a ser taxado, isso poderia criar uma distorção em relação ao gás natural e ao carvão. Portanto, alguns economistas dizem que seria melhor instituir esse tributo como parte de uma política energética mais ampla. Com o aumento da preocupação com o aquecimento global, um imposto sobre as emissões de CO2 faz mais sentido.


Outro perigo é o Tio Sam esbanjar essa nova receita. Alguns economistas sugerem usar o dinheiro em alternativas ao petróleo, enquanto outros gostariam de devolvê-lo à população na forma de, digamos, imposto de renda menor. Mais uma vez, trata-se de economia básica: usar impostos para manter altos os preços de uma coisa que queremos que se use menos - petróleo -, e usar o dinheiro para reduzir os custos de coisas que queremos mais - crescimento e produtividade. Há uma discussão sobre os benefícios de uma estratégia de transferência de impostos desse tipo. Teme-se que eles possam ser anulados pela perda de inovações que pode resultar da intervenção governamental. Mas muitos economistas afirmam que quaisquer efeitos negativos seriam relativamente pequenos. "Pode não ser um almoço grátis, mas certamente é um almoço pelo qual vale a pena pagar', diz Lawrence H. Goulder, economista de Stanford.


Se os EUA conseguirem a difícil façanha de manter os preços da energia consistentemente altos, como será o futuro? Para se ter uma idéia, dê uma volta pelo sistema de transporte público de Atlanta com Kerri Hochgesang. O custo das viagens diárias ao trabalho em seu Nissan Xterra havia disparado para US$ 460 por mês. Portanto, no fim de junho essa advogada de 32 anos passou a ir trabalhar de trem. "Imaginava que seria um tormento e demoraria demais", diz ela. Não foi nada disso: o percurso diário de 40 km agora é feito em 25 minutos, em vez de 1h20, e ela pode ler alguma coisa durante esse tempo, em vez se sofrer com o stress do trânsito.


Graças a novos usuários como Hochgesang, a utilização do sistema de transporte público de Atlanta aumentou 13% em junho e julho, sobre o mesmo período do ano passado. Beverly Scott, diretora do sistema, diz: "Meu marido brinca comigo: 'Você é a única pessoa que conheço que pula de alegria quando os preços da gasolina aumentam'". O trânsito em Atlanta na hora do rush diminuiu até 15%, diz Mark Demidovich, engenheiro do Departamento de Transporte da Georgia. "Isso quer dizer de 10 mil a 12 mil carros a menos circulando nas ruas", diz ele.


Ninguém ignora os problemas dos altos custos da energia. Mas isso também pode trazer vantagens reais. O jornal "The New York Times" relata que adolescentes de todo o país estão saindo menos com seus automóveis. A Whirlpool diz que as vendas de máquinas de lavar roupa altamente econômicas estão em crescendo - elas economizam tanto água como energia. No Laboratório Nacional de Energias Renováveis, as pesquisas para a produção de biocombustível a partir de algas foram retomadas, bancadas desta vez não pelo governo, e sim pela Chevron e pela ConocoPhillips, que poderão usar esses combustíveis.


De qualquer modo, idéias políticas inteligentes, como o crédito tributário para acabar com os SUVs e o uso do aço na produção de automóveis mais econômicos, estão pipocando.

(de http://www.valoronline.com.br/valoreconomico/285/primeirocaderno/especial/O+petroleo+caro+pode+ter+seu+lado+bom,08258,,59,5112516.html)

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Red-blood petroleum, Mr. Bush!

Triste, ver que muitos estadunidenses não vêm a mascara de Mr Bush...

:..-(

Petróleo vermelho-sangue

Bob Herbert*

É cada vez mais difícil que continuemos sendo enganados. Há duas semanas, The New York Times noticiou que quatro das maiores petrolíferas do Ocidente estavam prestes a assinar contratos sem licitação que lhes permitirão regressar ao Iraque, onde está a terceira reserva de petróleo mais abundante do planeta. Os acordos, que deverão ser finalizados nos próximos 30 dias, são o tipo de notícia pela qual as grandes petrolíferas vivem.

Podia-se até ouvir executivos cantando Oh, Happy Day ("Oh, Dia Feliz") nos escritórios da Exxon Mobil, Shell, Total e BP, excluídas do Iraque há 35 anos. Nesta semana, ouvimos falar que um grupo de assessores americanos, orientados por uma equipe do Departamento de Estado, teve atuação importante na elaboração desses contratos entre as companhias e o governo iraquiano. A Chevron e outras empresas também estão prestes a concluir acordos.

Durante muito tempo, o presidente George W. Bush e o vice-presidente Dick Cheney, ambos ex-executivos de petrolíferas, tentaram nos convencer de que a guerra no Iraque foi provocada pelo terrorismo, por armas de destruição em massa, e teria como objetivo levar a liberdade e a democracia ao povo iraquiano - enfim, por causa de tudo, menos do petróleo.

Não se levou em conta o fato de que Saddam Hussein não representava ameaça iminente para os EUA. Nem o fato de que o Iraque não tinha nada a ver com os ataques de 11 de setembro de 2001. No início de 2003, as tropas foram mandadas para a batalha e lá continuam, depois da morte de mais de 4 mil americanos, sem que haja previsão de fim do conflito.

As verdadeiras prioridades dos EUA ficaram evidentes quando começaram as pilhagens, após a queda de Bagdá. No meio da violência e do caos, os soldados americanos receberam a ordem de proteger um alvo particularmente precioso: o Ministério do Petróleo do Iraque. Agora, é muito conveniente a perspectiva de que o governo Bush, obcecado por petróleo, assessore o governo iraquiano na conclusão dos contratos com as petrolíferas!

Os contratos em si não são muito expressivos. Eles são, isto sim, a chave cobiçada que começará a abrir as portas das imensas reservas de petróleo do Iraque. É um prêmio para as petrolíferas. Mas a que custo? Além do preço terrível em termos de soldados americanos e de iraquianos mortos e feridos, a guerra desviou as atenções e os recursos necessários para sanar problemas cruciais nos EUA, onde o mercado da habitação entrou em colapso, a Bolsa de Valores enlouqueceu, a gasolina chegou a custar mais de US$ 4 o galão (3,8 litros), o desemprego aumenta e um número extraordinário de famílias de trabalhadores cheias de dívidas vê à frente o abismo financeiro.

E há ainda a guerra ao terror. As notícias mais recentes informam que a Al-Qaeda se reagrupou nas áreas tribais do Paquistão e recuperou a capacidade de lançar ataques terroristas a partir dali. Para um governo ligado umbilicalmente à indústria petrolífera, o fascínio das enormes reservas do Iraque foi maior até mesmo do que o impulso de aniquilar um inimigo que, no 11/9, assassinou mais de 2.700 civis.

Quem sabe quanto tempo os EUA levarão para desvincular-se de forma significativa do Iraque? O que se pode imaginar é que os EUA não farão grandes avanços em política energética, na cobertura de saúde para todos, na melhoria das escolas públicas ou na redução da dívida pública e privada enquanto não puserem fim ao compromisso ilimitado com uma guerra catastrófica que já consumiu trilhões de dólares. Quanto tempo levará para que os EUA se convençam disso?

*Bob Herbert é colunista do jornal ?The New York Times?
(de http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080702/not_imp199186,0.php)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Não há biocombustível sustentável, diz colunista do 'Guardian'

Podem tirar o cavalinha da chuva! O que é preciso acontecer é para com esta gastança estúpida de combustiveis em transporte individual, fruto da cultura automobilística norte-americana...


Não há biocombustível sustentável, diz colunista do 'Guardian'

'Único modo de diminuir as emissões dos gases de efeito estufa é reduzir o consumo.'

Da BBC Brasil - BBC

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- "Não há biocombustível sustentável, a não ser óleo de cozinha usado", afirma o colunista George Monbiot em artigo publicado no diário britânico The Guardian, nesta terça-feira.

Segundo o colunista, os governos, que "não dão ouvidos nem aos geólogos, nem aos ambientalistas", dificilmente poderão "ignorar os capitalistas", citando um relatório publicado pelo Citibank na semana passada, que afirma que será difícil aumentar a produção de petróleo, particularmente a partir de 2012.

O relatório, segundo Monbiot, diz que apesar das novas perfurações já planejadas para os próximos anos, "existe o medo de que a maior parte desta produção não será suficiente para contrabalançar os altos níveis de declínio da produção atual".

Segundo Monbiot, o governo britânico não parece ter nenhum "plano B" para lidar com a falta de combustível, ao contrário da Comissão Européia, que teria um plano "desastroso".

"A Comissão reconhece que 'a dependência do petróleo do setor de transporte... é um dos problemas mais sérios de insegurança nos suprimentos de energia enfrentados pela União Européia'. Em parte para diversificar os suprimentos de combustível, em parte para cortar as emissões dos gases causadores de efeito estufa, ela ordenou os Estados membros a garantir que até 2020 10% do petróleo queimado por nossos carros terão que ser substituídos por biocombustíveis", diz Monbiot.

Para o colunista, isso não vai resolver a falta de petróleo e poderá criar outros problemas ainda maiores na área ambiental.

Monbiot diz que a própria Comissão Européia já impôs regras afirmando que eles não deverão ser produzidos a partir da destruição de florestas ou outros habitats, já que isso poderia aumentar ainda mais a emissão de gás carbônico.

A Comissão também exige que as culturas de matérias-primas para os biocombustíveis não destruam a biodiversidade de ecossistemas.

"Parece bom, mas há três problemas. Se os biocombustíveis não puderem ser produzidos em habitats virgens, eles precisam ser confinados às terras cultivadas já existentes, o que significa que toda vez que enchermos o tanque do carro, estaremos tirando comida da boca de outras pessoas.

"Isso, por sua vez, aumenta o preço dos alimentos, o que encoraja os fazendeiros a destruir habitats virgens para plantar."

Segundo o autor, o terceiro problema é o "custo de carbono" - extremamente alto - da produção de biocombustíveis, descrito recentemente em dois novos relatórios.

"Mesmo a fonte mais produtiva (de biocombustível), a cana-de-açúcar plantada nas savanas do centro do Brasil, cria um débito de carbono de 17 anos. Como os maiores cortes nas emissões de gás carbônico têm que ser feitos agora, o efeito líquido desta cultura é exacerbar as mudanças climáticas."

Para Monbiot, a única maneira de evitar esses problemas é usando restos de cultivos como matéria-prima para os biocombustíveis, mas mesmo isso também não seria uma solução, já que esses restos são essenciais na manutenção da terra agrícola.

"Tirando a gordura usada para fritar batatas, não existe algo como um biocombustível sustentável", afirma o colunista.

"Todas essas soluções apresentadas foram criadas para evitar uma mais simples: reduzir o consumo de combustível para transporte. Mas essa exige o uso de uma commodity diferente. Os suprimentos globais de coragem política parecem, infelizmente, ter alcançado seu ápice há algum tempo." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

(do Estadão OnLine - http://www.estadao.com.br/geral/not_ger123173,0.htm